domingo, 11 de janeiro de 2015

Sobre a ansiedade nos tratamentos para fertilização e reprodução assistida


Estou tentando sempre postar alguma reflexão, espero que consiga fazer isso todo dia, mas nem vou me comprometer pois amanhã retornarei ao trabalho e tenho certeza que uma avalanche de compromissos vai me sugar... ai, ai... Mas vamos que vamos, agora já tive tempo para descansar um pouco.
A reflexão de hoje é sobre a ansiedade durante os tratamentos de gravidez e, de forma mais ampla, será sobre a ansiedade em mulheres que desejam engravidar.

O senso comum diz que o stress atrapalha nas tentativas de gravidez e, particularmente, a tensão pode interferir em um tratamento como a FIV, por exemplo. Para tirar a dúvida, já perguntei a dois médicos especialistas e ambos disseram que isso não é comprovado. Obviamente, o stress tem todo um impacto hormonal, mas não é isso que fará da tentativa um processo frustrado.


Resolvi escrever sobre isso porque meu marido diz que, desde que temos tentado engravidar, há pelos menos 6 anos, pelo de ser uma pessoa muito ansiosa e “pilhada” porque faço mil atividades ao mesmo tempo, tanto profissionais (sei que sou muito workaholic com 2 a 3 empregos simultaneamente), acadêmicas (amo estudar, escrever artigos e lecionar) e outras coisinhas (organização da casa, reformas, investimentos, tratamentos estéticos – amo um “embelezador”) e por isso não consigo engravidar.

Bom, se o stress não é determinante sobre a infertilidade, temos que reconhecer que ele atrapalha nossa vida e de alguma forma, interfere no processo, mas não que seja por isso.
É neste sentido que muitos médicos recomendam yoga e acupuntura – ou outras atividades relaxantes – bem como atividades físicas para uma maior atenção aos cuidados com o corpo e a mente.

O médico que está me tratando sugeriu uma consulta com a psicóloga da clínica, que ajuda os casais no tratamento e pediu para agendarmos consulta. Fingi que não entendi bem e saí sem agendar, pois meu marido avisou que não topava. Achei melhor não insistir e já estava gastado tanto dinheiro que pensei: “é melhor economizar nisso”. Pra falar a verdade, depois de gastar uns R$15 mil não faz tanta diferença e acho que o tratamento iria me ajudar bastante, mas din-din é din-din e sei que meu marido não iria nem amarrado porque odeia estas sessões, apesar do pai dele ser psicólogo comportamental.
Para responder se ansiedade e estresse atrapalham nos resultados de gravidez nos tratamentos de FIV, vou transcrever um trecho do site da psicóloga Luciana Leis, que nos ajuda a tirar o peso desta culpa que carregamos...

“(...) Percebo que, no senso comum, há uma crença de que esses elementos prejudicam sim nos tratamentos e, se não há respostas para a conquista da gravidez com a técnica de fertilização in vitro, o grande vilão foi o estresse vivenciado durante esse processo.
Penso ser importante esclarecer que não há como ficar “zen” fazendo tratamento para engravidar, os hormônios, rotina de ultrassons e auto-cobranças pela gravidez mexem com qualquer ser humano, por mais tranquilo que ele seja. Assim, certa dose de ansiedade e estresse são esperados neste processo, porém, se a intensidade for demasiada, sempre recomendo psicoterapia para auxiliar na diminuição dessa carga emocional e melhor enfrentamento de toda essa situação.

No entanto, não sei se a maioria de vocês sabe, mas, além de psicóloga clínica, também sou pesquisadora no Projeto Alfa e, a fim de esclarecer melhor sobre os possíveis efeitos negativos do estresse e ansiedade nos tratamentos de FIV, fui investigar sobre o tema.

O resultado disso, foi o trabalho que acaba de “sair do forno” e que foi aprovado e apresentado agora no Congresso Europeu de Reprodução Humana (ESHRE), que aconteceu de 29 de junho a 2 de julho em Munique. Nesta pesquisa foram incluídas 79 pacientes, com idades até 35 anos e com bom prognóstico de gravidez no tratamento de FIV. Utilizei como medidores de estresse e ansiedade- no momento da transferência embrionária- testes psicológicos e a medida da pressão arterial e frequência cardíaca.

Não houve associação entre estresse/ansiedade com taxa de gravidez em nenhum dos marcadores de estresse/ansiedade analisados. Ou seja, nesta pesquisa, o estresse e ansiedade, mesmo nas pacientes que o apresentaram em níveis mais elevados, não foram associados a testes negativos de gravidez.

Assim, acredito que os resultados do meu trabalho podem colaborar para deixar as mulheres que estão vivenciando esse processo, menos culpadas com sentimentos de estresse e ansiedade, tão comuns nos tratamentos de FIV.
A razão de um resultado de BHCG negativo em meio aos tratamentos ainda continua sendo uma incógnita e acredito que não poderia ser diferente, afinal, estamos falando de vida, e sobre a chegada de uma nova vida, não temos nenhum controle!”


Gente, isso me deixa muito aliviada, de verdade.
Nestas tentativas de gravidez, já tirei férias, fiz acupuntura, viagem, até reiki e sessões com aquelas pedras quentes, nem sei o nome, mas dizem que é para relaxar e recuperar as energias.

É importante deixar claro que não está se ignorando o impacto do stress neste processo, o que atrapalha todo o nosso ritmo de vida durante os tratamentos, pois viramos uma “bomba de hormônio e ansiedade”, mas é preciso compreender a integração com outros fatores que levam à infertilidade.

O stress e ansiedade podem atrapalhar a função reprodutiva pois promovem toda uma alteração hormonal na mulher, gerando disfunções que podem ser reflexo, principalmente, da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal - aumento do cortisol decorrente de situação de estresse-induzida pelo hormônio liberador de corticotrofina (CRH) com consequente secreção hipofisária de ACTH e β-endorfina. No homem, o stress leva à redução da quantidade de esperma e de volume do sêmen. O excesso de ansiedade muitas vezes pode resultar em falta de libido e de ereção.

No auge do estresse, a pessoa também pode vir a sentir palpitações, dores musculares, sensação de falta de ar, tontura, suor excessivo, extremidades frias e fadiga intensa, o que acaba provocando momentos de crise conjugal, o que pode atrapalhar ou até interromper o processo.

Outra fonte que me tranquilidade é o Guia do Bebê:

“Pesquisadores modernos, que se empenham na investigação psicológica em complemento aos avanços da endocrinologia reprodutiva, revelam que quase não há evidências relacionando fatores ligados à personalidade com infertilidade. Por ora, não se justifica que a ansiedade seja encarada como mais uma sensação de ‘culpa’ para os cônjuges.

Muitos pesquisadores se detêm no stress gerado durante os tratamentos de fertilização in vitro. Há estudos que revelam, inclusive, que os níveis de ansiedade e angústia pelos quais a mulher passa durante o tratamento são comparáveis aos de quem enfrenta doenças graves como o câncer”.

É, gente, não é fácil e quem passar por isso luta contra o sentimento de pressão.
Tem um outro estudo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo que aborda a questão dos “aspectos emocionais do casal após falha nas técnicas de fertilização in vitro”.

Está no link: www.fcmscsp.edu.br/files/vlm51n3_3.pdf

Para destacar aqui, vale ler o texto na íntegra que é bem curtinho, mas mostra que o casal pode passar por problemas como depressão após falha do tratamento. A mulher passa por um processo de negação e raiva, mas que o ideal, para que o relacionamento não seja afetado, é o otimismo. Porém, o tempo prolongado de tratamento leva a insegurança e pessimismo. O aumento do número de falhas é diretamente proporcional ao aumento de crises depressivas intermitentes.
Não é fácil mesmo.

Para concluir, que está tópico já ficou gigante e a intenção era uma breve reflexão de um domingo à tarde com muito calor: a relação entre stress e infertilidade ainda carece de muitos estudos, já que nada do que se sabe até agora oferece provas conclusivas.

Vale o cuido de não atribuirmos ao stress a falta de respostas diante da dificuldade de gravidez, isso só nos deixa mais nervosas, angustiadas e infelizmente, com a sensação de culpa (sei que não somos responsáveis pela gravidez demorar a acontecer, mas é um sentimento que vem e neste caso, não pode ser ignorado e é até certo ponto, legítimo de ser sentido e respeitado.

É isso, uma fase complicada, mas quando tudo passar, vamos pensar:: "Valeu a pena"!
 

Referências:

http://guiadobebe.uol.com.br/stress-e-infertilidade/

http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/05/12/para-mulher-que-passou-por-fiv-lidar-com-ansiedade-e-o-mais-dificil.htm

http://clinicafgo.com.br/noticias/aspectos-emocionais-da-infertilidade